O programa de melhoramento da aptidão leiteira da raça Guzerá

Vânia Maldini Penna, Maria Gabriela C.D. Peixoto, Rui S. Verneque.

Histórico

A raça Guzerá, eficiente produtora tanto de carne quanto de leite, é tradicionalmente considerada de dupla aptidão. Destaca-se também por sua grande rusticidade. Suas qualidades para a bovinocultura tropical fizeram com que a FAO a incluísse na lista de recursos genéticos mais importantes de serem preservados no mundo (Hodges, 1992).

Considerada uma das raças mais leiteiras da Índia, no Brasil, até o final do século passado, era explorada, principalmente para produção de carne. Poucos criatórios aferiam e selecionavam o seu potencial leiteiro. Em 1992, a Associação dos Criadores de Guzerá do Brasil (ACGB) decidiu implementar programas modernos de melhoramento das características produtivas da raça. Na época, eram escassos os dados de produção de leite e o passo inicial foi incentivar a execução de controle leiteiro oficial. Diversos criatórios se engajaram, então, na aferição oficial de todas suas fêmeas. Iniciaram-se, também, as buscas por animais com algum potencial leiteiro nos rebanhos tradicionais de corte, aquisição e subseqüente aferição de sua produção.

A partir desta base de dados, em 1994, deu-se o inicio da avaliação genética de touros Guzerá, por meio de um teste de progênie para características leiteiras e de um núcleo MOET de seleção para dupla aptidão. Em 2000, iniciou-se um programa de avaliação genética para características de corte e reprodução. Estes programas são conectados geneticamente, via Centro Brasileiro de Melhoramento do Guzerá (CBMG), que é o “braço” técnico da ACGB. Esta conexão permite produzir uma avaliação integrada para características de leite, carne e reprodução em toda a raça com os criadores participando de todos os programas ou de apenas um deles.

O teste de progênie (TP) da raça Guzerá avalia os touros com base na produção das filhas resultantes de acasalamentos aleatórios, com sêmen codificado, em rebanhos puros e mestiços e também na das filhas resultantes dos acasalamentos dirigidos no Núcleo MOET e nos rebanhos puros em controle leiteiro oficial, via Arquivo Zootécnico Nacional (AZN), desde que atendidas exigências de número, distribuição entre fazendas e conexão genética entre grupos contemporâneos. É coordenado pela Embrapa Gado de Leite. Embora a avaliação de touros pela progênie seja o método mais preciso para avaliação de touros para a produção de leite, o progresso genético neste método é lento, em função do longo intervalo de gerações requerido. Para que um touro seja avaliado e disponibilizado ao mercado é necessário que tenha produzido várias filhas e que estas tenham encerrado sua primeira lactação. Para isto, usualmente são gastos mais de seis anos, particularmente em raças zebuínas.

Nos núcleos MOET, vale-se da técnica de múltipla ovulação e transferência de embriões (MOET, sigla em inglês) para produzir famílias de irmãos completos. Os touros jovens são avaliados pela produção de leite de suas irmãs completas, meio-irmãs paternas e maternas, e demais parentes (Penna et al., 1998). Este método confere alta intensidade de seleção por trabalhar apenas com as “super vacas” da raça e grande rapidez por avaliar precocemente os tourinhos. Usualmente, a metade do tempo gasto na avaliação pela progênie. Apesar de menos acurado que um TP com grande número de filhas, permite maiores ganhos genéticos em função de maior rapidez e maior intensidade de seleção.

A correlação entre as avaliações genéticas utilizando apenas os dados das provas de progênie e as que incluem as avaliações com base nas colaterais e ancestrais do Núcleo Guzerá-MOET foi de 99% (Teodoro et al., 2006). Tal resultado demonstra a confiabilidade das avaliações dos animais deste Núcleo e reforça as vantagens de utilizá-las para imprimir rapidez à seleção.

Muitos dos animais produzidos no Núcleo MOET são, posteriormente conduzidos à prova de progênie e, quando suas filhas são aferidas, sua avaliação incorpora acurácia adicional. Daí a grande vantagem da integração dos programas, que permite associar rapidez e acurácia, ou seja, as vantagens de ambos os métodos.

O Núcleo Guzerá-MOET foi implantado sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, em parceria com o CBMG e a ACGB. Logo após a implantação, estes programas foram integrados dando origem ao Programa Nacional de Melhoramento do Guzerá para Leite, hoje sob coordenação da Embrapa Gado de Leite executado em parceria com o CBMG, a ACGB e a ABCZ. A condução deste programa baseou-se, portanto, na integração de duas importantes ferramentas de melhoramento genético: o teste de progênie e o núcleo MOET de seleção (Peixoto et al., 2007) e no aproveitamento das vantagens de ambos.

O programa de melhoramento de características de corte e reprodução da ANCP/USP junto aos rebanhos selecionados apenas para a produção de carne foi conectado geneticamente aos que participam dos programas leiteiros via Núcleo MOET e diversos rebanhos que participam simultaneamente de todos eles.

Como é uma raça de dupla aptidão, o programa de melhoramento da aptidão leiteira na raça tem certas peculiaridades. Tanto no Núcleo, como na maior parte dos rebanhos parceiros, o melhoramento simultâneo e equilibrado entre características de corte, leite e reprodução, mantendo a rusticidade da raça, é mais importante que a maximização pura e simples da produção de leite. Para isto, todo o trabalho seletivo é feito em “ambiente realista”, ou seja, em condições de produção comerciais (com base em pastagem, mais volumoso e pouco concentrado durante a lactação). O ambiente de criação e seleção não permite produções extremamente elevadas. E, tanto no Núcleo MOET como em grande parte dos rebanhos parceiros, além das DEPs nas características leiteiras, são levadas em conta as de crescimento e reprodução na  seleção de reprodutores e matrizes.

Nos programas MOET e TP do Guzerá, o delineamento cuida que estejam representadas diversas linhagens, visando diminuir riscos de aumento da consangüinidade pelo afunilamento genético decorrente do uso de alguns poucos reprodutores famosos e seus descendentes.  Este é um risco freqüente quando se pratica seleção intensa. Optou-se na raça por esta estratégia, mesmo que com aumento da produção mais lento em curto prazo, objetivando maiores ganhos a médio e longo prazo.

O primeiro sumário de touros para características leiteiras foi publicado no ano 2000. Para publicação da avaliação genética, exige-se, desde então, acurácia mínima de 50%, filhas em no mínimo três fazendas em avaliações pela progênie e pelo menos uma irmã completa no núcleo nas avaliações MOET. Diferentemente dos de muitas outras raças, são computadas todas as lactações com secagem normal (por baixa produção), independente da sua duração. Tal cuidado é tomado para não superestimar o valor genético de touros que tenham maior proporção de filhas com baixa produção, ou de filhas com lactações muito curtas, já que existem evidências que no zebu e seus cruzamentos este é um componente genético e bastante transmissível (Madalena, 1994).

Até então, somam-se nove sumários de touros publicados anualmente. No último sumário, para se ter uma dimensão do progresso do Programa, os dados de produção foram provenientes de 65 rebanhos, 70% puros e 30% mestiços, totalizando 6.868 lactações de 4.638 vacas multíparas, sendo 3.532 dados de primeiras lactações (Peixoto et al., 2008).

Foram publicados resultados da avaliação de 291 touros, 230 deles produzidos em 79 famílias MOET (média de 2,9 touros por família), dos quais 28 já incluindo progênies na sua avaliação. Dos demais 61 touros avaliados pela progênie, 30 tinham filhas em rebanhos puros e mestiços (TP) e 31 apenas em rebanhos puros (AZN). A alta herdabilidade da produção de leite na população avaliada (0,34) é indicativa da boa qualidade desta avaliação. 

No Sumário 2008, são também publicadas as avaliações genéticas para características de corte e reprodução dos touros dos programas leiteiros além do genótipo para a kappa-caseína. Este marcador que está associado ao maior rendimento industrial na produção de derivados do leite. A freqüência de 18% para o alelo favorável no Guzerá foi a mais alta encontrada em raças zebuínas e é semelhante à observada nas raças européias especializadas (Silva et al., 2007).  Estão também sendo estudados na raça outros marcadores moleculares (DGAT1, Pit-1, dentre outros) que, em breve, devem ter seus resultados publicados.

Apesar de bastante recente, o programa de melhoramento da raça já publica avaliações genéticas de seus reprodutores para as seguintes características: produção de leite, gordura, proteína, lactose, sólidos totais no leite, genótipo para kappa-caseína, idade ao primeiro parto, duração da gestação, perímetro escrotal, pesos e crescimento pré e pós desmama, peso adulto, área de olho do lombo, espessura de gordura e produtividade acumulada de matrizes. Já estão sendo medidas, prevendo-se publicação nos próximos sumários: contagem de células somáticas, medidas lineares de conformação corporal e úbere (17 medidas), facilidade de ordenha e temperamento.  

Assim sendo, a raça Guzerá no Brasil continua a ser uma raça única. “Guzerá leiteiro”, “Guzerá de corte” ou “Guzerá de dupla aptidão”, são termos que indicam que aqueles animais ou rebanhos tiveram sua aptidão leiteira, de produção de carne ou a dupla aptidão, respectivamente, selecionadas e comprovadas por avaliações genéticas objetivas.  Não existem diferenças de tipo racial entre estes distintos trabalhos seletivos, apenas de capacidade de produção. E alguns reprodutores são utilizados em todos estes grupamentos ou pelo menos em mais de um deles. Por exemplo, touros de dupla aptidão são utilizados nos rebanhos leiteiros para otimização de estrutura corporal e reprodução e nos exclusivamente selecionados para corte para incrementar a habilidade materna. Tal trânsito de animais entre os diversos esquemas seletivos contribui para a manutenção de diversidade genética e do tamanho efetivo da população.

Progressos nos programas de seleção da aptidão leiteira

A grande evolução do controle leiteiro, tanto em número de primíparas controladas quanto de rebanhos participantes indica o êxito dos Programas. Até 1993, 12 rebanhos possuíam algum dado leiteiro e existiam apenas 277 primíparas aferidas oficialmente na raça (figuras 1 e 2). O número de primíparas aferidas vem aumentando substancialmente desde a implantação do programa. Desde 2005, o número aferido anualmente já era muito superior a todo o conjunto de dados existente até o ano de 1993. Esta tendência traduz o forte crescimento do programa, demonstra a ampliação da população rastreada para a produção de leite e pode conduzir a aumentos na acurácia e eficiência das avaliações. O número de rebanhos participantes do programa também tem aumentado acentuadamente, tendo mais que duplicado no período. Esta ampla adesão indica a aceitação do mesmo por parte dos produtores.


Figura 1. Número de primíparas aferidas em função do ano de parto (Peixoto et al.2008 b)


Figura 2. Número de rebanhos que aderiram ao programa (REB1) e número de rebanhos cujas primíparas foram aferidas (REB2) a cada ano do parto (Peixoto et al.2008 b).

As médias gerais de produção e reprodução calculadas dos dados de vacas puras utilizados na avaliação genética de 2008 são apresentadas na tabela 1. Salienta-se que no banco de dados da raça Guzerá são computadas todas as lactações com secagem normal independente de sua duração. As médias de produção da raça são então penalizadas pelo cômputo destes animais precocemente descartados (observar os valores mínimos de produção de leite e duração da lactação), mas permite identificar e descartar rapidamente touros com alta proporção de filhas de baixa produção. Como, até o atual momento, tem sido praticado amplo rastreamento em rebanhos ainda não selecionados, este efeito tem sido considerável nas médias da raça.

Tabela 1. Médias e desvios-padrão (DP), valores mínimos (Min) e máximos (Max) observados para as produções de leite, gordura e proteína, contagem de células somáticas (CCS), duração da lactação e idade ao primeiro parto – Fonte: Peixoto et al (2008) a e b*

Característica

Média

DP

Min*

Max*

Leite em 305dias  (kg)

2.063

932

65,9

6256,2

Gordura (kg)

95

47

6,7

245,7

Proteína (kg)

61

27

8,7

137,5

CCS (mil células/ml)*

164

315

1,0

3254,0

Duração da lactação (dias)

266

68,1

50,0

444,0

Idade ao 1o parto (meses)

42,6

7,8

20,6

65,6

Os valores médios e máximos das características de produção são indicadores do potencial leiteiro da raça. Os baixos valores para a CCS podem ser indicadores da grande rusticidade da mesma e sua resistência à mamite. Conforme Brito (1999 a e b) valores superiores a 250 mil células/ml indicam a possibilidade de infecção da glândula mamária, que conduz a grandes perdas econômicas nos rebanhos e na indústria. Na raça, apesar das condições rústicas nas quais os animais são aferidos, a CCS média se apresenta em excelentes patamares

Na média da idade ao primeiro parto (3,5 anos), além de possíveis causas genéticas, deve ser considerado o ambiente no qual a raça é criada. Quase 40% dos animais desta amostra são oriundos do Nordeste, incluindo o semi-árido. Animais da região Sudeste foram, em média, 3,5 meses mais precoces. Os mínimos e máximos encontrados e o alto desvio padrão indicam grande variabilidade na característica e a existência de animais bastante precoces.

     Na raça em geral  
No Núcleo Moet

Figura 3. Tendência da média dos valores genéticos (Kg de leite) de todas as vacas controladas nos rebanhos puros participantes (1) e das nascidas no Núcleo Moet (2) em função do ano do parto.

Apesar de recente, o programa de melhoramento da aptidão leiteira já apresenta resultados. Na figura 3, é apresentada a tendência da mudança nas médias anuais do valor genético de todas as vacas avaliadas no Programa bem como a dos animais do Núcleo Moet (Peixoto et al., 2006). Como a primeira avaliação de touros foi publicada no ano 2000, seu reflexo ainda é pequeno sobre a média geral da população (6,47 kg/ano), pois em média, as filhas de animais com prova conhecida encerraram a primeira lactação a partir de 2004. Quando foram consideradas apenas as vacas nascidas no núcleo MOET de seleção, a tendência se tornou bastante expressiva (36,46 kg de leite/ano). Este resultado evidencia a importância deste esquema como ferramenta para acelerar o progresso genético e indica que, com o devido tempo, estes ganhos devem se refletir na população geral.  Os aumentos evidentes de animais de alta produção nos diversos rebanhos e os recordes sucessivos em feiras e demonstrações de produção são indicativos de que estes ganhos já começam a se refletir.

A idade ao primeiro parto vem apresentando tendência decrescente desde o início dos programas (figura 4)



Figura 4. Médias da idade ao primeiro parto (IPP), e respectiva tendência lineares, em função do ano de parto

Com relação à consangüinidade, estudo recente, no prelo (Peixoto, informação pessoal), estimou um coeficiente médio de endogamia de 0,9% (de 2,5% entre os consangüíneos). A tendência de decréscimo nas médias do coeficiente de endogamia nos últimos dez anos (Figura 5) coincide com o início dos programas e o início da publicação do sumário de touros. Este decréscimo pode ser atribuído às estratégias adotadas no delineamento dos programas e à utilização de touros de linhagens diferentes daquelas usadas até então nos diversos rebanhos. Esta atitude pode decorrer da segurança dada pelas avaliações genéticas, ou seja, os criadores passaram a utilizar touros de outros rebanhos e até de linhagens até então não experimentadas com base na confiança em suas DEPs publicadas.



Figura 5. Tendência do coeficiente médio de endogamia (F) por período (1=1960-1969; 2=1970-1979; 3=1980-1989; 4=1990-1999 e 5=2000-2007)

Considerações finais

A raça Guzerá, além de estar bem adaptada às condições tropicais do país e atender aos sistemas de produção de duplo propósito, tem sido beneficiada pela realização de trabalho sério de melhoramento genético para características leiteiras, com o monitoramento constante da variabilidade genética da população.

Apesar de recente, o programa de melhoramento da aptidão leiteira da raça tem dado evidentes sinais de êxito. O amplo crescimento da população avaliada, as médias gerais satisfatórias, a identificação de grande número de animais de alta produção, o grande progresso genético no estrato elite, o recente progresso na população geral e a ampliação na base genética, com redução na consangüinidade, são indicadores de forte estruturação e eficiência dos programas e das amplas possibilidades de ganhos acentuados.  Tudo indica que a difícil fase de implantação dos programas já foi superada e que a fase de ganhos já se iniciou.

O êxito dos programas de melhoramento para características leiteiras, junto com as de corte e reprodução e a versatilidade e rusticidade da raça vêm garantindo-lhe mercado no país e no exterior. Além de importante recurso genético como raça pura, o Guzerá tem se tornado uma importante opção nos cruzamentos para produção de mestiços leiteiros.

 

Referências Bibliográficas

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